Vítima do posicionamento escolhido, o novo Cherokee ficou na mira dos mais “cool” e populares do segmento. Atirado às “feras” da Audi e da Land Rover o Jeep não terá uma vida fácil, mas promete não cair sem dar luta...

Na apresentação internacional do novo Jeep Cherokee, os responsáveis da marca perguntaram aos jornalistas presentes quais seriam, nos respetivos mercados, os concorrentes que julgávamos mais apropriados. Respondi que tanto pelas dimensões como pela escolha de motores, e até pelo formato da carroçaria, via o Cherokee como um concorrente de propostas como o Mazda CX5, por exemplo, mas acrescentei que o preço no mercado português o colocava (muito) acima desta faixa e em concorrência direta com os chamados Premium. O sorriso na cara do nosso interlocutor deixava adivinhar que esta estratégia não era casual e, quando indagado diretamente, retorquiu que a Jeep devia ser vista como uma marca de eleição, capaz de ombrear com os melhores, especialmente quando falamos de propostas com algumas pretensões aventureiras. Assim, a escolha dos concorrentes para este comparativo surgiu com naturalidade. O Land Rover Range Rover Evoque eD4 4x2 (ufa...) é o SUV que todos (ou quase) querem bater. Não só pelos seus argumentos intrínsecos, mas acima de tudo pela aura de desejo criada em torno de um desenho que, convenhamos, é arrebatador. O Q3 2.0 TDI 4x2 de 140 cv consegue a proeza de, na sua versão de acesso, ser mais acessível do que o Cherokee e não fosse a oferta de equipamento (no valor de 2600€) da Jeep aos 30 primeiros compradores, e a relação preço/equipamento das unidades ensaiadas seria similar.

De destacar que, por uma questão logística, utilizámos na sessão fotográfica uma unidade de três portas do Evoque, embora todas as medições, impressões de condução e preços digam respeito à variante de cinco portas, conduzida uns dias antes. Não que as diferenças sejam assim tão significativas, já que ambas andam o mesmo, curvam de igual maneira e até o (bom) ambiente interior é semelhante. As diferenças, para além das evidentes de ordem estética, prendem-se com o espaço interior (ainda mais acanhado no três portas) e na visibilidade, já que a versão “coupé” torna ainda mais problemática ver o que se passa atrás. Nesse aspeto, tanto o Q3 como o Cherokee facilitam muito a vida ao condutor. O problema do Jeep é que falta harmonia ao conjunto. A direção é pesada quando não o devia ser (e leve quando a queríamos mais precisa) e a caixa é mais lenta e renitente, especialmente quando comparada com as dos rivais. Até o motor acusa alguma inércia inicial quando é obrigado a vencer os mais de 1800 kg. As acelerações medidas são bem a prova desta sensação, com o Jeep a revelar-se quase 1,5 segundos mais lento do que os adversários. Depois de embalado a história é outra e, nas retomas de velocidade, o generoso valor de binário do Jeep (350 Nm) atingido a um regime muito favorável (1500 rpm) permite-lhe jogar de igual para igual com o mais leve e “enérgico” Evoque 2.2 eD4. Destaque ainda para o bom “comportamento” do Q3. Apesar dos 140 cv de potência e do mais baixo valor de binário do trio, o Q3 tira partido do baixo peso para se revelar surpreendente nas medições. Com a vantagem adicional de ser o mais frugal do trio e com uma diferença assinalável em cidade. O Cherokee é, novamente, prejudicado pelo elevado peso e, mesmo com start/stop, gasta mais 1,7 l/100 km em ambiente urbano do que o Audi.

Onde o Cherokee é rei e senhor é na habitabilidade e na mala. O Evoque até é ligeiramente mais largo atrás e anuncia uma maior bagageira, mas os 575 litros declarados parecem inflacionados e resultantes de uma medição até ao teto. Se considerarmos o valor até à chapeleira, o Cherokee parece maior, tendo ainda a mais-valia de permitir a regulação longitudinal do banco traseiro (numa proporção 60/40). Com o banco na sua posição mais recuada, a mala oferece 412 litros (500 litros no máximo) e o espaço para as pernas atrás atinge uns incríveis 770 mm. Se à acrescida sensação de espaço acrescentarmos uma boa dotação de equipamento, uma cuidada insonorização a velocidades estabilizadas (o Jeep tem vidros duplos) e uma suspensão relativamente branda, temos no Cherokee uma confortável alternativa a um familiar médio. Mas não pense que este o levará onde uma berlina tradicional não consegue ir. Com tração dianteira e apenas 142 mm de altura ao solo, o Cherokee é o menos aventureiro dos três. Nesse aspeto, o Evoque é claramente o mais dotado, com uma altura ao solo de 215 mm e, claro, também melhores ângulos caraterísticos.

O Q3, mesmo nesta versão com um pacote Off-Road (2640€), fica a meio caminho, com 170 mm de altura. Ainda assim, as jantes de 19” com pneus 255/40 (Pirelli PZero) desaconselham incursões fora de estrada, até porque o pneu de reserva estreito (75€) tem naturais limitações se “furar” a algumas centenas de quilómetros de casa...

O preço da paixão

 O Audi é o mais barato dos três se considerarmos apenas as versões de acesso. Recheado de extras, como no caso desta unidade, o valor inicial de 38 683€ sobe quase 10 000€. O Cherokee considerado, em compensação, custa “apenas” 43 000€ (e até pode baixar para os 40 400€ se trocar o equipamento por um desconto), mas este valor só é válido para as 30 primeiras unidades.

O recordista dos preços altos é o Land Rover, mas nem isso parece demover os seus clientes, que podem reaver parte do investimento inicial com os valores de retoma que o Evoque garante. Basta olhar para preços astronómicos que o Range Rover atinge no mercado de usados.

 

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