Um dos pontos fortes do novo VW Touareg está no seu preço, de tal forma que, só existe outro SUV 4x4 com motor V6 Diesel e mais de 250 cv abaixo da fasquia dos 80 000 euros: é o Jeep Grand Cherokee 3.0 CRD Limited. Assim, o terceiro elemento deste comparativo só tem quatro cilindros, mas será que o atual campeão de vendas da gama X5, a versão sDrive 25d, consegue bater os V6? A resposta segue nas próximas páginas.

Todos querem um SUV, ou, pelo menos, o aspeto de um SUV. Por outro lado, o aumento continuado da procura por este formato quer dizer que, cada vez mais, o mercado procura a imagem sem dar grande importância às capacidades 4x4 associadas, sobretudo em países de clima ameno e sem neve e nas cidades mais populosas, como é o caso de Portugal. Sempre atenta a novas tendências do mercado, a BMW resolveu tirar dois cilindros e a tração às rodas dianteiras ao seu X5, criando a versão 25d sDrive com um preço base de 71 580 euros; também tem sete lugares de série e paga classe 1 nas portagens, com Via Verde. Adicionando uns extras como a versão Comfort, a navegação profissional, as jantes de 19’’ e pintura metalizada (para referir só os mais caros) o preço do carro ensaiado chega aos 83 760 euros.

Já o VW Touareg 3.0 V6 TDI começa nos 71 947 euros, ascende aos 74 867 euros na versão Terrain Tech (com redutoras, bloqueios dos diferenciais central e traseiro e proteções de chassis inferiores) e somando os inevitáveis extras (pintura metalizada, pacote R-Line exterior, bagageira elétrica, jantes de 19’’, pacote “Chrome and Style” para R-Line…) chegamos a um valor tecnicamente igual ao do BMW: 83 575 euros. Mas o Touareg tem motor V6 de 262 cv e tração permanente às quatro rodas, bem como suspensão pneumática e navegação, entre o equipamento de serie.

Por seu turno, o Jeep Grand Cherokee, apesar de, por 77 500 euros, ser o que tem o preço base mais elevado, acaba por ser o que na versão fotografada fica mais leve na carteira: 81 050 euros. Como extras possui apenas a pintura metalizada, o teto de abrir elétrico, os vidros traseiros escurecidos e a navegação, contando com um sistema de tração integral com redutoras de série, estofos elétricos em pele, câmara traseira e muitas outras coisas que nos SUV’s alemães são pagas à parte. Ou seja, o Grand Cherokee tem a melhor relação preço/equipamento.   

Quatro ou seis?

Esta é a grande questão. Será que o motor de quatro cilindros e tração apenas às rodas traseiras limitam de forma decisiva as aptidões dinâmicas do X5. Sim e não. No plano objetivo e considerando a utilização normal do condutor tipo, não. Beneficiando do baixo peso (pesa menos 200 kg que o Touareg e menos 350 kg que o Jeep) e da melhor adaptação da caixa (os três usam a caixa automática ZF 8HP mas o BMW tem a melhor eletrónica de controlo, sendo a caixa mais rápida nas passagens, mais intuitiva na resposta ao acelerador e mais eficaz a explorar o motor), o X5 é tão rápido como os seus rivais mais potentes (mas mais pesados e com mais perdas nas transmissões 4x4) nas acelerações e perde marginalmente nas recuperações, mas raramente as diferenças superam meio segundo. Em contrapartida, depois de virmos do volante do Jeep ou do VW é impossível não notar que a sonoridade e a entrega de potência não possuem a mesma qualidade dos V6 (e muito menos do brilhante seis em linha da BMW do X5 30d), sendo que nestes dois aspetos o Jeep destaca-se pela positiva: tem o motor mais disponível na primeira metade do curso de acelerador, em contraste com o Touareg que precisa sempre de mais acelerador para acordar.

É claro que, com menos peso, menos atrito e menos cilindrada o X5 é nitidamente mais comedido no apetite por gasóleo, enquanto, em oposição, o Gran Cherokee e Touareg ficam prejudicados pelo maior arrasto da sua transmissão integral com redutoras; em particular, o VW com o pacote Terrain Tech fica demasiado guloso, pelo que, a não ser para os mais radicais, a versão normal com um eficiente (e leve) diferencial central Torsen representa uma escolha mais acertada.

E se nas retas os V6 não descolam do BMW, nas curvas têm ainda menos sucesso nesse intento. Com a frente muito leve e quatro pneus da mesma dimensão, o X5 25d sDrive revela-se o mais ágil e preciso, com a resposta mais rápida à direção e os movimentos de carroçaria melhor controlados. O Touareg é mais lento de reações e tem movimentos de carroçaria mais pronunciados, não exibindo sequer a característica faceta de enrolar naturalmente a primeira metade das curvas. Também aqui, a versão com Torsen e suspensão com correção ativa de rolamento deve ser superior.

Graças à já referida resposta do motor e à visibilidade dianteira (ao contrário do X5, no Jeep temos perfeita noção dos cantos do capot), o Grand Cherokee é o mais fácil e divertido de conduzir em cidade, até porque possui uma suspensão de molas de aço afinada para o conforto, com molas traseiras progressivas. O problema é quando queremos atacar uma sequência de curvas com mais empenho, pois a traseira macia gera sobreviragem de rolamento e o ESP entra em pânico e somos brindados com reações pouco progressivas e trajetórias imprecisas. Aprendendo a conhecer essa atitude é possível dela tirar partido para curvar com menos volante e beneficiar da atitude neutra em aceleração, mas nunca com o abandono e consistência da dupla germânica.

Fora de estrada?

Embora as marcas organizem eventos TT (regra geral passeios por trilhos relativamente rolantes com uma ou outra dificuldade para os mais atrevidos), o uso mais extremo que a maioria dos clientes faz destes grandes SUV’s 4x4 passa por estacionar em cima de um passeio alto ou, numa praia lotada, em zonas de areal inacessíveis a carros normais. Posto isto, para momentos de diversão em estradões de bom piso ou, de preferência, em pedreiras abandonadas, o X5 25d sDrive é o melhor dos três: tem melhor controlo de carroçaria, direção mais direta, caixa mais rápida e positiva em modo manual, tração apenas traseira e, sobretudo, desliga o ESP. Mas só com tração traseira não faz muito mais do que isso, o que, na verdade, é muito mais do que um cliente normal alguma vez vai fazer, pelo menos enquanto leva os miúdos à escola.

E, precisamente, altura ao solo é a grande vantagem do Touareg de suspensão pneumática (de série em Portugal), que mesmo sem o pack Terrain Tech montado pode subir até aos 300 mm. Para além disso, o referido pack acrescenta as redutoras e o bloqueio a 100% dos diferenciais central e traseiro. Na verdade, para ser o mais apto a trepar nesta companhia, basta o truque da altura extra da suspensão pneumática. O Gran Cherokee até tem redutoras e cinco programas (Snow, Sand, Auto, Mud, Rock) de gestão do conjunto motor, acelerador, caixa e transmissão mas com menos altura ao solo pode ficar “plantado” em locais onde o Touareg passa; já agora, por mais 10 000 euros, a versão Overland já vem de série com a suspensão pneumática desportiva Quadra-Lift com regulação de altura (até aos 280 mm), transmissão 4x4 Quadra-Drive II, sistema de travagem de altas prestações e cruise control ativo com alerta de colisão e travagem de emergência.

Qual o melhor?

Com um preço muito competitivo e sem que as suas aptidões dinâmicas em asfalto sofram horrores (não é tão desportivo nem tem a eficácia quase obsessiva do X5 30d xDrive), sendo pelo menos equivalente ao Touareg, o X5 faz valer argumentos objetivos que estão na ordem do dia, como consumos e emissões, para ganhar com naturalidade. Mas, se quiser mesmo usar todas as valências de um SUV o X5 25d sDrive não chega, sendo que entre o asfalto e fora dele o VW Touareg é, neste trio, o carro mais completo. Infelizmente para o SUV VW, e a avaliar pelas vendas do X5 25d sDrive, parece que a maior fatia do mercado valoriza mais a imagem e o preço do que as (verdadeiras) aptidões TT.

Por fim, no nível de preços aqui considerado (que é como quem diz com o X5 limitado à versão 25d sDrive), o Jeep Grand Cherokee é o mais divertido de conduzir, com algumas das suas “dificuldades” a aumentarem o desafio e o prazer. A personalidade forte e tipicamente americana também são atributos a não desprezar, sendo que, investindo na versão Overland, muitas das limitações dinâmicas face ao Touareg ficam drasticamente reduzidas.

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