Neste comparativo juntamos três automóveis iguais no conceito, citadinos puros, mas diferentes na forma como encarnam esse espírito. O Renault Twingo GT num estilo mais desportivo, o Suzuki Ignis 1.2 Allgrip, com tração integral tão eficaz em asfalto como fora dele, e o VW Up na sua configuração turbo, mais potente e equipada, e capaz de uma utilização mais global. Um jardim-escola repleto de meninos rebeldes.

O sonho de guiar concretiza-se, muitas vezes, ao volante de carros pequenos. Por norma, são baratos, fáceis de conduzir e gastam pouco, o que os torna muito apetecíveis para quem se estreia na condução, por exemplo, ou para quem simplesmente precisa de um segundo carro para as voltas na cidade. Estes três citadinos conseguem tudo isto, mas de uma forma um pouco mais radical e irreverente, já que juntámos neste trabalho as versões mais apelativas do Renault Twingo, com o desportivo GT de 110 cv de potência e tração traseira, o VW Up 1.0 TSI de 90 cv com tração dianteira e o Suzuki Ignis, que traz a marca japonesa de volta ao segmento A, com um SUV aventureiro, radical, e espaçoso que aqui lhe trazemos numa versão de tração integral (utiliza um sistema automático com dois programa de condução exclusivos como o controlo de descidas e o modo todo-o-terreno. Este último pode ser ativado até aos 30 km/h e o arranque é sempre feito em 4x4) e motor 1.2 de 90 cv. Ponto comum entre os três, para além do conceito de urbanos: o preço. Em qualquer dos casos, o valor fica pouco acima dos 16 mil euros, números apelativos para carros pequenos, mas com tanto para oferecer.

Como referido, o Ignis 1.2 tem a vantagem de poder ser comprado com tração integral, ainda assim não deixa de ser fácil de levar nas ruas da cidade e o preço é bastante apelativo face àquilo que oferece: por 16 892 euros, já com 1575 euros de desconto direto, tem uma lista de equipamento ultra recheada onde não faltam os bancos dianteiros aquecidos, os avisadores de desvio de faixa e de colisão frontal, o cruise control, o arranque sem chave ou até a câmara de marcha-atrás. À primeira vista, tudo indica que esta jogada da Suzuki terá resultados positivos, mas será que estes argumentos chegam para bater os citadinos “de gema”?

Todos diferentes... todos iguais

O Twingo, nesta versão GT, preparada de raiz pela Renault Sport, tem um motor 0,9 turbo com 110 cv, e assume-se como o mais potente do trio. O Up tem motor de 1 litro, também de três cilindros e com turbo, mas fica-se pelos 90 cv. O Suzuki Ignis troca a sobrealimentação pelo acréscimo de cilindrada (motor 1.2) para garantir níveis de potência similares, também tem 90 cv e, mais importante ainda, acelerações melhores que as do Volkswagen. O Twingo é, de facto, mais rápido, mas também é (muito) prejudicado por um ESP que teima em assegurar o protagonismo, travando os intentos de qualquer condutor que lhe queira fazer “frente”, o que é pena, já que esta versão, até pelo cariz e aspeto desportivo que encerra, merecia proporcionar ao condutor um pouco mais de adrenalina. Talvez para evitar resquícios de sobreviragem ou para impedir que um condutor normal se aperceba da sua invulgar configuração, a Renault optou por dotar o citadino de um ESP hiperativo. Ainda estamos a pensar em curvar e já está a dar sinais de vida. É subtil, verdade seja dita, mas atua (muito) precocemente. Felizmente, o motor 0,9 turbo com 110 cv trabalhado pela Renault Sport consegue dar um ar da sua graça. Respira muito bem nos regimes de rotação mais elevados, dá gozo acelerar e ouvir o “ronquinho” que sai do escape duplo, mas gasta um pouco mais que os restantes.

Quem diria que o Suzuki Ignis 1.2 Allgrip se revelaria tão divertido de conduzir. Menos castrado pelo ESP e com um motor de quatro cilindros atmosférico com uma invulgar apetência para subir de regime, este Ignis é muito desembaraçado em estrada e entusiasmante em ambiente urbano. O menor valor de binário (o turbo é imbatível neste ponto) prejudica-o em algumas recuperações, mas numa utilização diária o Ignis parece sempre ser rápido o suficiente e depois com o sistema Allgrip, não há perdas de tração e é possível fazer muitas brincadeiras fora de estrada, até pelos 18 cm de altura ao solo. Com pneus convencionais, é vê-lo a flutuar sobre a areia e a ultrapassar alguns obstáculos TT. Ágil, leve e com uma manobrabilidade que só é ultrapassada pelo Twingo, com as rodas livres para um enorme ângulo de viragem, acaba por ser uma proposta muito interessante, apelativa e até emotiva, neste segmento.

Mas isto não é um duelo, e o Up é, claramente, um adversário de peso. Tanto na aparência, como no desenho interior e até nas soluções mecânicas, o Volkswagen parece o mais “adulto” e maduro dos três. Tem um motor de três cilindros, como o Renault, é verdade, mas tem menos vibrações e ruído de funcionamento. O interior é o mais sóbrio e oferece tanto espaço para os ocupantes como o Twingo. O bloco 1.0 do Up também permite um assinalável desembaraço nos circuitos urbanos e extraurbanos, mas não é tão entusiasmante como o do Twingo ou tão rápido como o do Ignis. Na questão espaço, o Suzuki é imbatível até porque é o único que permite regular longitudinalmente os dois bancos traseiros, aumentando o espaço na mala ou de comprimento para pernas. Todavia, e por ter tração integral, o sistema eletrónico rouba algum espaço à bagageira do Ignis, mais propriamente 56 litros face ao 4x2, mas mesmo assim acaba por oferecer o volume mais generoso, isto se puxarmos os bancos de trás à frente.

O melhor sai um pouco mais caro.

Perante este cenário, o Twingo e o Ignis parecem uma excentricidade, ainda que o VW também se distinga pelo facto de ter motor turbo e este é o único na gama, até à chegada do prometido GTI cujas imagens já são conhecidas. O Renault tem também como argumento uma lista de equipamento generosa e os cinco anos de garantia.

O que realmente impressiona no Renault é a forma como, partindo de uma base invulgar, se conseguiu criar um carro tão harmonioso e bem posicionado no segmento em que se insere, tal como a Suzuki, que transformou o Ignis num objeto que apetece conduzir e, pelo preço, mais vale optar pela versão de tração integral. Os consumos não sobem e dá para ir onde nenhum outro permite, uma mais valia para uma aventura mais radical por “terras” nunca antes navegadas. O VW é o mais “normal” dos três. O motor 1.0 TSI marca a diferença, mas a lista de equipamento não consegue chegar ao patamar dos outros dois e pelo preço... mais vale pensar duas vezes e concluir que, tanto o Ignis como o Twingo GT dão muito mais nas vistas que o Volkswagen, e o cliente português, mesmo que o negue, não gosta de passar despercebido.

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